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Exemplos notáveis de engenheiros e engenheiras marcam mensagem do Dia da Consciência Negra

O Dia Nacional da Consciência Negra é carregado de história. A história do país e de lutas importantes por mais igualdade e respeito. Fazendo uma homenagem à Zumbi dos Palmares, um dos principais nomes da resistência contra a escravidão no Brasil e que foi morto em 20 de novembro de 1695, o Dia Nacional da Consciência Negra leva a reflexões sobre a construção cultural e sociológica da nação e busca coibir atos de injustiça, violência e discriminação.

Dois nomes nesse contexto marcam a Engenharia brasileira: Enedina Marques, primeira engenheira negra, e André Rebouças, primeiro engenheiro negro. Ele, oriundo da Bahia, formou-se em Engenharia, no ano de 1859, pelo Exército Brasileiro. No Rio de Janeiro, para onde se mudou ainda criança, tem seu nome em várias obras que lhe conferiram projeção como engenheiro civil, a exemplo do plano de abastecimento de água para a cidade, durante a seca de 1870, a construção das docas da Alfândega e das docas D. Pedro II. O Túnel André Rebouças, que liga os bairros do Rio Comprido à Lagoa, na cidade do Rio de Janeiro, leva o nome em sua homenagem.

Após 86 anos, em 1945, Enedina Marques tornava-se a primeira engenheira negra do Paraná e do Brasil. Aos 32 anos, graduou-se em Engenharia Civil na Faculdade de Engenharia do Paraná, hoje parte da Universidade Federal do Paraná. Trabalhou na Secretaria de Obras Públicas e no Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica de Curitiba. Enedina desafiou padrões sociais e acadêmicos no Paraná e enfrentou preconceitos de gênero e raça durante as obras na usina Parigot de Souza, inaugurada em 1970, anos depois da sua aposentadoria. No ano de 1988, uma rua em Curitiba recebe o seu nome. Em 2000, foi imortalizada ao lado de outras mulheres pioneiras do Brasil, no Memorial à Mulher Pioneira do Paraná.

Exemplo de hoje: “engenheira e mulher negra”

Suenne Barros

Desde André Rebouças e Enedina Marques, a Engenharia ganhou muitos outros profissionais negros, que enfrentaram com garra e profissionalismo as amarras do preconceito. E representando esses profissionais, a Mútua entrevistou a engenheira civil e Seg. Trab. Suenne da Silva Barros, conselheira do Crea-PB, coordenadora da Câmara Especializada de Engenharia Civil e Agrimensura do Regional.

Com pouco mais de 25 ano de carreira, Suenne passou a compor o Sistema Confea/Crea e Mútua no ano passado quando foi eleita conselheira do Crea paraibano. Foi coordenadora adjunta da Comissão de Ética Profissional e integrou as Comissões de Engenharia de Segurança do Trabalho e de Renovação do Terço. Atuou em obras particulares para construtoras, como engenheira civil e engenheira de Segurança do Trabalho e ainda teve passagens pelo serviço público. Atualmente é autônoma, prestando serviços para a sociedade na execução de obras particulares de construção e reforma e desenvolve trabalhos de consultoria em Segurança do Trabalho para indústrias. Nessa trajetória, a conselheira do Crea-PB, conta que já passou por situações discriminatórias e se diz contrária às cotas para negros em universidades.

Mútua – O que representa, para você, O Dia da Consciência Negra?
Suenne – O Dia da Consciência Negra é um dia a mais para reflexão do papel do negro na sociedade. Enquanto profissional e enquanto pessoa, observo que no Brasil ainda existe um preconceito muito grande com relação as, não digo nem minoria, pois a população brasileira ela é miscigenada, então não temos minorias, todo e qualquer brasileiro nascido tem sangue negro. Infelizmente, o preconceito e discriminação são reais ainda nos dias de hoje com o negro e com o descendente de negro. Portanto, o Dia da Consciência Negra é um dia para analisar o que está acontecendo no país e o que podemos fazer para mudar essa visão. Acima de tudo, precisamos mudar isso já dentro de casa, pois antes de ir para a escola, que é a primeira instância social de uma pessoa, ela tem a formação dentro do lar. Se a criança tiver um pai e uma mãe preconceituosos, ela já vai chegar a escola também sendo preconceituosa. Só um trabalho intenso junto à família pode mudar a consciência do ser humano adulto, e assim por diante, pois são os adultos que ensinam aos pequenos o que é a questão do preconceito e que não se deve ter preconceito e que não se deve discriminar.

Mútua – Qual sua percepção da mulher negra na Engenharia? Você observa que existe no mercado algum tipo de preconceito?
Suenne – Eu, como negra, engenheira e profissional, já sofri preconceito por ser negra e foi algo claro e muito nítido. Foi em uma situação em que eu era fiscal de obra de saneamento, no serviço público. Um determinado funcionário da empresa que estava fazendo o serviço o qual eu fiscalizava, veio com indagações que remetiam ao preconceito. Não estava com meu crachá e ele, que não me conhecia, perguntou se eu estava esperando minha “patroa”. Prontamente respondi que não, que eu era engenheira fiscal e estava avaliando o trabalho dele. Não foi só essa vez que eu sofri isso na pele. Já sofri, também, assédio sexual dentro do canteiro de obras, que é outro problema muito grave com relação a mulher como um todo, não a mulher negra em si, mas todas as mulheres sofrem muito com essa questão do assédio sexual e do assédio moral.

Mútua – Como você se sentiu nessas situações e qual foi sua reação? Quem passa por isso não deve se calar?
Suenne – Nessas situações, me senti mal vendo o quanto as pessoas nos avaliam pelo nosso estereótipo, sem nem querer conhecer a nossa essência. Na ocasião que citei da obra de saneamento, fiz questão de deixar bem claro que eu era a engenheira fiscal do serviço que ele estava fazendo. As pessoas não podem se calar diante de situações como essas. Nas palestras que faço, sempre falo das situações que vivenciei enquanto engenheira e mulher negra.

Mútua – Sobre as cotas para negros nas Instituições de Ensino, qual sua avaliação? Elas, de fato, conseguem nivelar as oportunidades e o acesso ao ensino superior?
Suenne – As cotas, na minha avaliação, não deveriam nem existir! A partir do momento em que se criam cotas especificas para grupos, isso já representa uma segregação. Deveria existir um governo preocupado com a educação básica para que os futuros profissionais e futuros ingressantes das universidades tenham a mesma educação. A educação deveria ser nivelada para todos, branco, preto, pobre, rico, amarelo, católico, umbandista. Qualquer que fosse a pessoal, ela deveria ter a mesma educação e, assim, os que se dedicassem mais, iriam se destacar e entrar na faculdade sem precisar de cota. Essa é a minha visão, não precisaríamos de cotas se tivéssemos uma educação igualitária independentemente de cor, de raça, de credo e de poder aquisitivo.

Mútua – Qual sua mensagem nesse 20 de novembro, Dia da Consciência Negra?
Suenne – Nesse Dia da Consciência Negra que de fato o Brasil comece a trabalhar a mentalidade humana, a mentalidade dos brasileiros, dos patriotas para que eles mudem a forma de pensar e a forma de ver as pessoas como um todo, independente de raça, de cor, de credo e de poder aquisitivo. Somos todos iguais perante a Lei e todos nós temos os mesmos direitos e, também, deveres, inclusive. Então, nesse dia, minha mensagem é que tenhamos direitos e deveres igualitários para todos os brasileiros.

 

Fonte: Gecom/Mútua (com informações do Nexo Jornal e INBEC)

Foto: Arquivo pessoal

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