Urbanização sustentável nas cidades brasileiras

Nas últimas décadas, observou-se uma veloz urbanização do planeta com grande parte da população vivendo nas cidades, em um processo irreversível para o bem ou para o mal. A China prevê uma grande migração do campo para a cidade, o que significa uma escala de milhões de pessoas se concentrando nos centros urbanos. O Brasil, por sua vez, assistiu a um processo rápido de urbanização, sendo que as cidades brasileiras ainda carecem de uma infraestrutura mínima para garantir aos seus cidadãos uma boa qualidade de vida.

A minha geração de ambientalistas era portadora de uma ideia romântica do campo, com sérias restrições a esta urbanização veloz. Hoje, muitos conceitos praticados há poucas décadas estão superados, sendo cada vez mais evidente que devemos debater o modelo das cidades, de modo a torná-las capazes de oferecer boa qualidade de vida a seus habitantes.

Este tema foi um dos destaques do evento anual do CBCS – Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, o 6º Simpósio Brasileiro de Construção Sustentável, que aconteceu esta semana: como tornar as cidades brasileiras melhores em termos de oferta de serviços públicos e privados, combatendo a desigualdade social. Nas palavras de Marcelo Takaoka, presidente do CBCS, "existe a necessidade de se mudar a mentalidade daqueles atores públicos e privados que operam nas cidades, estabelecendo um ponto de convergência no qual a sustentabilidade é o polo de atração".

Estão nas cidades as grandes oportunidades de mitigação no campo da mudança do clima, o que exige políticas públicas efetivas e empresários com visão de médio e longo prazo. Realmente há necessidade de se colocar na agenda dos governantes um compromisso com políticas que não atendam unicamente o calendário eleitoral.

O melhor exemplo hoje, no Brasil, está no estímulo aos automóveis concedido pelos governos com algumas consequências trágicas. As maiores despesas de consumo das famílias brasileiras não estão na educação ou mesmo na saúde e sim nos automóveis, de acordo com o programa Pyxis Consumo do Ibope. E mais do que isso: de acordo com o Estadão Dados, "ter carro próprio nunca esteve tão barato no Brasil, assim como andar de ônibus nunca esteve tão caro".

Este é um retrato 3X4 da falta de sensibilidade dos nossos governantes e desprezo absoluto pelos seus cidadãos. No caso do transporte público, nada justifica a precariedade deste serviço, caro e de péssima qualidade, ainda que haja um enorme espaço para inovação. Levando em consideração que os ônibus urbanos são utilizados fundamentalmente no serviço público, quais seriam as razões para que, nas concessões e aquisições, o poder público não exigisse que os mesmos fossem eficientes no consumo de combustível? E por que não promover isenções nos itens da planilha de custo que mais oneram as tarifas?

É inegável que a sociedade brasileira está mais aberta a mudanças de comportamento: a bicicleta já é vista como meio importante de transporte, deixando de ser encarada apenas como lazer. Esta mudança simbólica reflete claramente que boas políticas governamentais seriam bem recebidas pelo eleitorado. E como assinalou Takaoka, "não podemos esquecer que as manifestações de junho foram provocadas pelo aumento da tarifa e por maior justiça social na mobilidade nas grandes cidades brasileiras".

 

Fonte: Brasil Econômico (Fábio Feldmann – Consultor em sustentabilidade)

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