Risco de ‘apagão’ de engenheiros diminui

Ritmo de novas obras de infraestrutura e aumento de formandos deixa relação mais equilibrada

O ritmo lento de recuperação de economia e a conclusão de algumas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para Copa e Olimpíada – além do atraso no programa de concessões – afrouxaram o gargalo de mão de obra qualificada entre engenheiros, avaliam entidades representativas do setor, como o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP).

Além do esfriamento da demanda, a oferta tem crescido em ritmo mais acelerado nos últimos anos, ressalta o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Entre 2002 e 2011, o número de concluintes em cursos de engenharia dobrou e chegou a 42 mil. O total de matriculados foi multiplicado por três no período e passou de 600 mil.

O presidente do Confea, José Tadeu da Silva, afirma que o crescimento "de certa forma discreto" do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro não confirma a previsão de expansão da economia sinalizada há dois anos e que, por isso, não há mais déficit de profissionais no mercado. "Com o desenvolvimento abaixo da taxa de crescimento potencial, a demanda por engenheiros está equilibrada, ao contrário do cenário apontado em 2010", completa. A entidade tem 618 mil engenheiros registrados.

Para Francisco Kurimori, presidente do Crea-SP, "nunca faltou mão de obra". O crescimento de 7,5% do PIB em 2010, ele diz, fomentou o temor de que o número de engenheiros disponível no mercado não daria conta de um avanço em patamares semelhantes nos anos seguintes. "Como vivemos crises nas três décadas anteriores, muitos engenheiros estavam naquela época fora do mercado, atuavam em outras áreas", explica. Para avaliar a demanda atual do mercado por engenheiros na área civil, o Crea-SP, que concentra 40% dos profissionais registrados no conselho em todo o país, tomou como base a média diária de Anotações de Responsabilidade Técnica (ART), que são expedidas sempre que um engenheiro assina uma nova atividade. Segundo Kurimori, desde o ano passado elas voltaram para os patamares anteriores a 2010, entre 3,8 mil e 4 mil.

Um dos setores mais afetados pelo aumento da demanda por engenheiros nos últimos anos, a construção civil não reclama de falta de mão de obra. Haruo Ishikawa, vice-presidente de relações capital-trabalho do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), afirma que, em 2010, faltavam empregados em praticamente toda a cadeia da construção, do operacional à engenharia. "Mas o setor recuou junto com a economia", avalia. O mercado de trabalho ainda é positivo para os engenheiros civis, mas os empresários, segundo Ishikawa, não têm expectativa de que a atividade melhore no curto prazo.
Em 2010, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou o estudo "Escassez de engenheiros: realmente um risco?" em que defendia que, mesmo que a economia crescesse nos anos seguintes "à taxa modesta" de 3%, não haveria apagão desse tipo de mão de obra. Sob esse ritmo, entre 2009 e 2012 o país precisaria de 50 mil novos engenheiros. Se a variação do Produto Interno Bruto (PIB) chegasse a 7% ao ano, o número subiria para pouco mais de cem mil.
Um dos autores do estudo, o economista Divonzir Gusso reitera que os estoques de engenheiros já naquela época estavam dando conta dos empregos disponíveis no mercado. Ele ressalta que, além de a economia estar crescendo a taxas ainda mais baixas que as mínimas previstas no estudo, o número de engenheiros formados nos últimos anos tem aumentado expressivamente. Os 19,6 mil concluintes em 2002 transformaram-se em 42 mil em 2011, de acordo com os últimos dados do Ministério da Educação (MEC) – número bem maior do que a média de novos profissionais ingressantes no mercado por ano entre 2009 e 2012 esperada pelo Ipea, de 27 mil. Gusso estima que o número de profissionais no país chega quase a 800 mil hoje. Do total, cerca de um terço desempenha funções efetivamente ligadas à engenharia.

Dos 42 mil formados em 2011, cerca de 30% concluíram cursos ligados a eletricidade, energia, eletrônica e automação; 20%, engenharia civil; 14%, mecânica; 6% na área de química, e o mesmo percentual em alimentos. Apenas 477 graduaram-se em engenharias naval e aeronáutica.

O aumento expressivo da remuneração desses profissionais nos últimos anos, para o economista, foi consequência do incremento da demanda, mas decorreu também de um movimento de valorização dos salários da categoria. "O trabalhador brasileiro era muito mal pago", avalia. Analisando o ordenado de carreiras de engenharia nos últimos anos, o economista verificou que recentemente a diferença entre os salários de admitidos e desligados tem diminuído bastante. "Isso significa que os salários devem se estabilizar nesses patamares e que não há excesso de demanda", conclui.

Entre as 14 profissões cujos salários são pelo menos o dobro da média das carreiras para profissionais com diploma de nível superior, de R$ 3,3 mil, há cinco engenharias, entre elas a mecânica, a de minas e a metalurgista. As informações foram tiradas dos dados desagregados da pesquisa "Perspectivas profissionais – nível técnico e superior", publicada, por sua vez, em julho deste ano. "A tendência é que o nível de emprego pra essa carreira se mantenha estável no curto prazo", avalia.

Para o diretor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, José Roberto Cardoso, a relativa estabilidade na demanda por engenheiros no país só se verifica porque técnicos e profissionais de outras áreas têm desempenhado funções de engenheiros. Ele questiona também a qualidade daqueles que têm ingressado no mercado recentemente e diz que apenas um quarto dos engenheiros tem boa formação, de acordo com a avaliação do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), realizado pelo Ministério da Educação (MEC) – e do qual a USP participará apenas a partir deste ano.

Através de sua assessoria de imprensa, o MEC destacou que, pela primeira vez na história do ensino superior no Brasil, o número de calouros em engenharia superou o de direito. Em 2011, do total de ingressantes em cursos superiores no país, 9,7% entraram em engenharia e 8,5% em direito. No ano anterior, as proporções eram de 8,3% e 9%, respectivamente. Em 2011, foram 601.447 matrículas em engenharia.

Do total de contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), 17% são em cursos de engenharia (163 mil). O MEC afirma, porém, que os índices de vagas de engenharia por 10 mil habitantes no Brasil estão "muito abaixo" da de países como Alemanha e Coreia do Sul e que manterá os esforços para ampliar o número de vagas na carreira e diminuir a evasão.

José Tadeu, do Confea, ressalva que, apesar de não haver déficit, é preciso levar em conta, para ponderar a oferta de profissionais duas questões, a necessidade de atualização de muitos engenheiros que passaram anos ausentes do mercado, desempenhando outras funções, e a concentração em determinadas regiões. De acordo com o Confea, há no Brasil 6,1 engenheiros para cada mil habitantes. No Maranhão, a relação é de 1,4 engenheiros por mil habitantes; no Rio de Janeiro, de 9,1.

Ainda segundo a entidade, há menor oferta de mão de obra em alguns setores específicos – "na área tecnológica nacional, de forma pontual, em segmentos como gás, petróleo e minério e tecnologia da informação". A importação de mão de obra estrangeira, por sua vez, é ainda pouco significativa, apesar de crescente. No primeiro semestre de 2013, foram emitidos pelo Confea 50 registros para diplomados no exterior. No mesmo período de 2012, foram 27 registros; no primeiro semestre de 2010, 11.

Fonte: Valor Econômico

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.