Consumo de bens de capital cresce acima do previsto no 2º tri

O consumo aparente de bens de capital no segundo trimestre surpreendeu ao manter ritmo expressivo de crescimento. Segundo estimativas de economistas consultados pelo Valor, a produção nacional de máquinas e equipamentos, descontada a exportação e somada à importação desses itens, subiu entre 1,6% e 3,7% entre abril e junho na comparação com os três meses anteriores, feito o ajuste sazonal. Esse desempenho é um forte indício de que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e construção civil) aumentou novamente no período, depois do salto de 4,6% observado na abertura do ano.

O comportamento acima do esperado do investimento no segundo trimestre, no entanto, não gerou expectativas mais otimistas para 2013. Com queda da confiança espalhada por todos os setores da economia em julho, mas concentrada na indústria, e câmbio em nível mais depreciado, a avaliação é que os incentivos concedidos pelo governo não serão suficientes para animar os empresários a investir e, assim, quase todo avanço da formação de capital físico no ano – cujas projeções variam de 3,7% a 7,5% – virá da herança estatística deixada pelo primeiro semestre.

Sócio e economista da JGP Gestão de Recursos, Fernando Rocha calcula que a importação de bens de capital caiu 0,7% entre o primeiro e o segundo trimestres, já descontadas as influências sazonais, e a exportação desses produtos recuou 6,3%, desconsiderando-se resultados atípicos provocados pela venda contábil de uma plataforma de petróleo em junho. Divulgada pelo IBGE, a produção doméstica do setor subiu 3,9% na comparação trimestral. O resultado dessas variáveis, segundo Rocha, foi uma alta de 3,7% da absorção interna de máquinas de abril a junho, o que aponta para aumento de 3,1% da formação bruta no período.

O economista já trabalhava com variação positiva do investimento no segundo trimestre, mas afirma que a magnitude do crescimento registrado não estava na conta. Segundo ele, os estímulos – com juros negativos para a aquisição de máquinas, equipamentos e caminhões nas linhas de financiamento do BNDES – continuaram a impulsionar a demanda por esses bens, o que, porém, não deve continuar a ocorrer. "O investimento está desconectado do resto da economia, mas isso vai se reverter no curto prazo", diz Rocha, para quem a intensa retração na confiança dos empresários é um prenúncio de que a atividade terá uma "virada forte", e para baixo, no terceiro trimestre. Nesse cenário, afirma, não faria mais sentido tirar projetos da gaveta.

Para Aurélio Bicalho, do Itaú Unibanco, o consumo aparente de bens de capital se expandiu em 1,6% na passagem trimestral, o que indica alta entre 2% e 3% da formação bruta em igual comparação, ritmo ainda considerado bom pelo economista, mesmo com alguma perda de fôlego frente ao primeiro trimestre. A dúvida, diz Bicalho, é como esse componente do Produto Interno Bruto (PIB) vai evoluir daqui para frente, diante da perda de força de alguns fundamentos importantes para o investimento.
Além do mau humor do empresariado, o economista do Itaú menciona o dólar mais alto, que encarece a compra de máquinas importadas, como fator de contenção da formação de capital físico. A maior volatilidade cambial observada no período recente, acrescenta Bicalho, também afeta negativamente os investimentos, assim como o ciclo de aperto monetário ainda em curso, que eleva o custo do capital. Nesse ambiente, ele projeta que a formação bruta vai crescer menos no próximo trimestre, podendo voltar a encolher.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, argumenta que há um excesso de pessimismo em relação à conjuntura atual, já que os dados do segundo trimestre mostram que os investimentos seguiram em ritmo. Em seus cálculos, o consumo doméstico de bens de capital cresceu 2% ante os primeiros três meses do ano, com ajuste, enquanto a FBCF deve subir 3,6% nessa comparação. Segundo Borges, a alta disseminada da produção do setor, puxada pelos incentivos, teve influência positiva sobre o investimento no período, assim como um desempenho favorável da construção civil, que tem peso de cerca de 45% na formação de capital físico.
A diluição dos protestos ocorridos em junho, uma expansão maior do PIB no segundo trimestre e o sucesso dos leilões de concessão em infraestrutura podem evitar que o desânimo dos empresários contamine a economia "real", diz o analista. Mesmo assim, o cenário da LCA para o investimento no segundo semestre é de estagnação, devido ao real mais desvalorizado. Em um segundo momento, Borges afirma que a depreciação cambial não atrapalha tanto os investimentos, mas, no curto prazo, a mudança muito rápida e acentuada do patamar da moeda americana encarece e inibe a compra de maquinário importado.

Ao contrário de Borges, o estrategista-chefe da Santander Asset Management, Ricardo Denadai, sustenta que a maior desconfiança em relação ao cenário econômico será o principal impedimento ao investimento na segunda metade do ano, após a alta prevista de 3,5% da formação de capital físico no segundo trimestre – número melhor que o imaginado no início do ano.

Denadai calcula que o consumo aparente de bens de capital saltou 11,8% de abril a junho sobre igual período de 2012, variação que não deve se repetir daqui para frente

"Seria difícil manter esse ritmo de qualquer modo. Com a queda da confiança, a cautela com as decisões de investimentos fica ainda maior."
Segundo Rodrigo Baggi, analista de bens de capital da Tendências Consultoria, cerca de metade da alta de 13,8% da produção do setor registrada no primeiro semestre veio do segmento de veículos pesados, concentração explicada pelas safras recorde, que elevaram a venda de caminhões, e os juros reais negativos do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES.

Esses dois fatores, contudo, terão efeito cada vez mais limitado ao longo do ano, avalia Baggi. "A sensação que temos é que 2013 será um ano composto por dois semestres muito diferentes. No primeiro, entramos com o pé no acelerador, mas daqui para frente existe uma desconfiança muito grande com relação ao crescimento."

 

Fonte: Valor Econômico

Deixe seu comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.