Inflação oficial divide indústria e mercado

Setores se opõe sobre o ciclo de aperto monetário para reduzir a inflação. Enquanto isso, Planalto comemora
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,03% em julho e animou economistas com uma possível acomodação dos preços no curto prazo. Em doze meses, o IPCA agora está em 6,27% e caiu para abaixo do teto da meta, de 6,5%. A deflação nos setores de alimentos e transportes foi a responsável por desacelerar o indicador. Com uma das inflações mais baixas da história para o mês, o resultado acirrou ainda mais as disputas entre o mercado financeiro e o setor produtivo. O primeiro pede a continuidade do ciclo de aperto monetário, já o segundo exige a interrupção imediata dele.
O fator de maior preocupação ainda continua sendo o câmbio, que desvalorizou cerca de 15% desde meados de maio, quando a cotação do dólar estava em R$ 2,00. A volatilidade ainda não se refletiu no IPCA, mas um impacto de meio ponto percentual é esperado para os próximos doze meses.
No mesmo dia, o Banco Central publicou seu o Índice de Commodities (IC-Br), que mostra uma aceleração de matérias-primas agrícolas, metálicas e, principalmente, energéticas. Nos últimos três meses, esses grupos subiram 8,01%, 6,46% e 11,43% respectivamente. A evolução é mais vagarosa do que a que aconteceu em 2012, que fez disparar os preços de alimentos. Apesar disso, economistas garantem que as commodities estão no radar do Banco Central.
Enquanto os efeitos cambiais não afetam a dinâmica dos preços, o Palácio do Planalto comemora. A presidente Dilma Rousseff contou vantagem ao falar da desaceleração marginal do IPCA. “Maio foi menor, junho foi menor, julho é 0,03%. Então, eu estou muito tranquila para dizer, que, no que se refere à inflação, nós temos, de fato, a garantia que esse compromisso do governo com a estabilidade está se mostrando na prática. A dona de casa que vai no supermercado hoje percebe que o preço da cesta básica reduziu. Isso foi medido em todo Brasil.”
A presidente se refere à pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), publicado na terça-feira, que mostrou queda no custo da cesta básica em todas as 18 capitais pesquisadas.
Guido Mantega, ministro da Fazenda, também se juntou ao coro da “inflação controlada” e aproveitou para reiterar seu compromisso com os preços. “O que nós estamos vendo é que a inflação baixou mesmo. Nós tivemos a cesta básica caindo ao seu menor nível há muito tempo e o IPCA próximo de zero[HOJE]. Portanto, isso significa que a inflação sempre esteve sob controle e agora voltou para o patamar normal desta época do ano.”
Antecipando-se a questionamentos futuros, Mantega afirmou também que a inflação deve voltar a subir nos próximos meses. Algo normal na visão do ministro. “Todo ano acontece isso. A inflação tem uma sazonalidade e ela está tendo um comportamento normal agora no país”, concluiu.
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Economistas se dividiram ao análisar a inflação atual. Parte deles, os que integram o mercado financeiro, apontam para os perigos do dólar e para a aceleração das commodities. Dizem que a recuperação econômica dos países desenvolvidos devolverá uma dinâmica inflacionária às matérias primas. Já outra parte, os do setor produtivo, argumentam que, se a inflação está controlada, não há razões para o Banco Central continuar a elevar a taxa básica de juros (Selic). Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, diz que não há motivos para “soltar rojões”. “O índice veio baixo, mas se as tarifas de ônibus não tivessem caído por causa das manifestações, os preços teriam subido 20% em julho”, argumenta.
Para ele, o Banco Central deve subir a Selic para 9,5% até o final do ano (hoje está em 8,5%) e seria um risco interromper o ciclo de aperto monetário antes disso. “Se o Banco Central parar de subir os juros, significa que ele está olhando no retrovisor. Não há nada que garanta que esse nível de inflação irá resistir”, complementa
Já Julia Ximenes, assessora econômica da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio), diz que não há a necessidade de mais juros. Segundo ela, as pressões inflacionárias advinham dos alimentos, o que, em sua visão, não são influenciados pela Selic. “A saída não são os juros, porque eles contêm apenas a demanda. As pessoas não estavam comendo demais e não vão passar a comer menos só por causa da Selic. Era um problema de custo”, explica Ximenes.
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Julio Gomes de Almeida, sócio da consultoria da Nobel Planejamento e uma espécie de economista híbrido — meio governo, meio mercado, meio indústria —, avalia que o Banco Central precisa de argumentos mais sólidos para interromper o ciclo de aperto monetário. Mas ele entende que a alta dos preços voltou para um patamar benigno, principalmente devido à inflaçao no setor de serviços, que está em 8,5% em 12 meses. “Isso coloca a inflação de volta ao esquadro”, ilustra.
“O Banco Central precisou aumentar os juros diante de um sentimento de que a inflação estava desgarrada. Imagino que ele continue este processo até ter indícios substanciais de que o IPCA irá convergir para o centro da meta (4,5%)”, complementa.

Fonte: IG Economia

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