Engenheiro de fundações e contenções

Profissional especializado em solos baseia suas atividades em rigoroso trabalho de investigação e tem que saber lidar com as condições impostas pela natureza
"Esse setor só expande quando o País cresce." A definição do engenheiro José Luis Saes, proprietário da Anson, reflete muito sobre a carreira do engenheiro de fundação e contenção. Com a expectativa de investimentos que precisam ser feitos no País em infraestrutura, é certo que há muito para a profissão crescer. O aquecimento da construção civil por conta dos investimentos decorrentes da Copa do Mundo de 2014 também é uma boa notícia. Vale lembrar que não há obra alguma, independentemente de porte ou localização, que possa dispensar a etapa de fundações.
Luciana Martinez Borba Rocha, gerente de projetos da Zaclis, Falconi, conta que tudo que seja relacionado com o solo, desde suporte para pisos e pavimentos à escolha do tipo de fundação e contenção, é função do engenheiro de fundações e contenções, que também define a sequência executiva e realiza o acompanhamento de obras. Ela explica que, com base em seus conhecimentos e nas informações obtidas com relação ao solo e ao empreendimento, o profissional tem condições de fornecer várias alternativas de soluções para fundação para que o cliente possa escolher a mais viável financeiramente e pensando nos prazos. O profissional deve ter empenho na investigação: "Trabalhamos muito com estatística e amostragem. Fazemos vários furos e a correspondente interpretação. Somos dependentes dos ensaios para dar um diagnóstico do local", conta Luciana.
O profissional que atua em obras de contenções e fundações agrega conhecimentos das áreas de mecânica dos solos e estrutura. Apesar das faculdades de engenharia abordarem de forma bastante eficiente os temas teóricos, no meio acadêmico o aluno tem acesso apenas a uma parte do que é necessário à formação de um bom engenheiro de fundações. Quando se fala em geotecnia, vivência e prática em obras contam muito, afinal aprende-se bastante com as observações de antigos erros, acidentes e patologias.
Além da formação essencial, para impulsionar a carreira é necessário fazer pós-graduação ou especialização na área. "A pós-graduação é um diferencial. Há vários cursos direcionados para quem trabalha nessa área", comenta a gerente de projetos da Zaclis, Falconi.
O mercado de trabalho para a carreira é amplo. O engenheiro poderá optar por atuar com projetos, também exercendo acompanhamento técnico das obras, ou trabalhar na execução com empresas especializadas em serviços de geotecnia.
O engenheiro de fundações e contenções interage em seu dia a dia com várias disciplinas, tais como estrutura, arquitetura, planejamento, orçamento/custos e, até mesmo, com a área de instalações enterradas. Durante a implantação do empreendimento, esses profissionais são rotineiramente consultados por arquitetos para auxiliar na tomada de decisões, por exemplo, em relação à quantidade de subsolos e à viabilidade técnica dos solos.
O trabalho normalmente é realizado em meio período no escritório e a outra metade em campo. Por isso, a jornada de trabalho que, em princípio, é de até nove horas, pode se transformar em 12 horas. "Em alguns casos, é necessário residir no local da construção. Mas são períodos de pico, no começo da obra, quando você precisa se dedicar mais", explica Luciana Rocha.
Em sua rotina diária, o profissional que atua com fundações e contenções precisa ter muito foco, pois acidentes, como por exemplo, a queda de um muro de arrimo ou o abalo estrutural de uma edificação, podem trazer muitos danos materiais e, pior ainda, danos irreparáveis com acidentes fatais.
A modernização da carreira, segundo os profissionais consultados, deve dar-se por meio do aperfeiçoamento tecnológico dos equipamentos usados. "Já existem algumas máquinas que provocam pouca ou quase nenhuma vibração", aponta Rocha. Com isso, os danos em áreas próximas tendem a diminuir, assim como os riscos de acidentes.
O profissional

Ivan Joppert, engenheiro civil formado pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, diretor técnico da Infraestrutura Engenharia e especialista na área de fundações e contenções
Qual é o panorama atual do setor de geotecnia?
O panorama é promissor, pois o Brasil está carente e almeja rapidamente melhorias na área de infraestrutura. Não é possível imaginar uma obra de infraestrutura sem estar presente a engenharia de fundações e contenções. Podemos citar também o setor de logística, que está tendo um grande crescimento com a execução de centros de distribuição. Já na área imobiliária, atualmente, há um excesso de produtos prontos à venda, o que implica uma diminuição desse tipo de obra principalmente na cidade de São Paulo. Mas creio que logo deva existir uma retomada.
Quais são os principais desafios do dia a dia? Como a experiência ajuda a superá-los?
É muito comum a verificação, no local, de solos com características diferentes daquelas descritas nas sondagens. É nessa hora que a experiência ajuda muito para que não ocorra uma paralisação nas atividades, nem uma futura patologia ou, o que é pior, um acidente durante a execução.
Quais são as principais transformações tecnológicas recentes em sua área de atuação?
Na área de projetos, assim como nas demais áreas que atuam na transferência de tecnologia, a grande evolução ocorreu com o advento dos computadores que possibilitaram a resolução de problemas com mais rapidez e confiabilidade. Na etapa de execução, os novos equipamentos deixaram as obras mais rápidas, com custos menores, e qualidade melhor. Muitos desses equipamentos monitoram a execução no que se refere à resistência do solo, prumo, concretagem da estaca etc., a exemplo das estacas tipo hélice contínua.
Que dicas podem ser dadas para quem almeja ingressar nessa área?
É importante ser apaixonado pelo que faz, estudar muito as matérias ministradas na graduação, estender seus conhecimentos em curso de pós-graduação e ter sempre a humildade de saber que cada dia na sua carreira sempre será um aprendizado.
Quais os principais conhecimentos adquiridos no início da carreira?
Eu tive a sorte de viver os "anos de crise", o que me obrigou a trabalhar em uma empresa como projetista e também lecionar nas cadeiras de mecânica dos solos e fundações. Isso fez com que eu estivesse sempre atualizado. Hoje, com a boa fase que estamos vivendo, o engenheiro recém-formado tem que assumir rapidamente responsabilidades e tomar decisões que exigem uma base muito boa para não errar. Acredito que o segredo seja adequar os problemas de campo à teoria aprendida na graduação, além de compartilhar e discutir as decisões com pessoas mais experientes.
Currículo
Atribuições: responsável pela investigação do solo para definir tipos de fundações e contenções que podem ser usados. Planejamento da sequência executiva e acompanhamento do processo para garantir o resultado do trabalho.
Aptidões: domínio de geotecnia, conhecimento dos equipamentos disponíveis no mercado e veia investigativa.
Formação: engenharia cuja grade curricular contemple mecânica dos solos e fundações. Também deve ser capacitado por meio de cursos específicos como pós-graduação e especializações.
Oportunidade de trabalho: pode trabalhar na área privada em empresas especializadas ou como consultor para compra de terrenos por parte de construtoras e investidores. Como a atividade envolve perfurações e aberturas de valas, esse profissional pode atuar em empresas ligadas à infraestrutura, como ferrovias, metrôs e empresas de abastecimento de água.
Remuneração média inicial: em torno de R$ 5 mil para engenheiros recémformados. A tendência de aumento, com o passar do tempo, é de até 40%.

 

Fonte: Revista Téchne

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