Brasilienses cuidam da natureza e ganham qualidade de vida

Nas mãos de Clarice, nada é desperdiçado. Ela reaproveita até lixo que recolhe nas ruas. Graças à insistência de Wilton, moradores de um prédio no Sudoeste aderiram à separação de materiais orgânicos e secos. Renato dispensa qualquer veículo movido a combustível para não contribuir na poluição do ar. Ele se desloca para os quatro cantos de Brasília em cima de uma bicicleta. Abadia acompanha de perto o crescimento das mudas de árvores plantadas por ela em duas regiões degradadas por ações humanas. Essas são histórias de moradores do Distrito Federal que mudaram costumes e decidiram adotar atitudes pró-ecológicas. Além de contribuírem com a preservação da natureza, eles ganharam mais qualidade de vida ao desenvolverem hábitos que podem servir de exemplo para a sociedade.

Desde 2005, o servidor público Wilton Luiz Araújo, 47 anos, mantém o ritual de separar o lixo de casa. O que antes era uma ação solitária, hoje é seguida pelos vizinhos do prédio onde mora. A professora Clarice Valadares Durães, 41, também faz a sua parte. Educadora ambiental, sempre carrega consigo sacolas para recolher papéis, plásticos e outros resíduos que encontra em áreas de uso comum, como o Parque da Cidade. Já a dentista Maria Abadia Chaves Barberato, 55, se dedica a disseminar o verde. O também funcionário público Renato Zerbinato, 36, não troca a sua bicicleta por nenhum carrão do ano.

A atitude desses brasilienses é analisada pela ecóloga e professora de biologia da Universidade Católica de Brasília (UCB) Morgana Bruno. Ela acredita que, ao se preocuparem com as questões ambientais, eles contribuem com o próprio bem-estar. “Tudo o que você fizer ao meio ambiente, inevitavelmente, influenciará na sua vida. Em algum momento, você vai estar cercado pelas ações que cumpriu. E o tempo de retorno é menor do que imaginamos. Se você faz o bem, ele vem até você”, frisa a especialista. “Quando estamos bem, pensamos mais no ‘nós’ e deixamos de ser egoístas em todos os sentidos”, completa.

Verde resgatado

Copaíbas, jatobás, bananeiras, palmitos-juçaras, tapiás estão hoje espalhados nos 13,6 hectares do Sítio Geranium, em Samambaia. Mas, há 20 anos, o terreno era um local de pouca vida, resultado do crescimento urbano desordenado. Os impactos fizeram as águas do Ribeirão Taguatinga ficarem mais escassas. O solo acabou empobrecido. Na tentativa de salvar o pouco que ainda restava na região, a dentista Maria Abadia Chaves Barberato, 55 anos, liderou um mutirão. Ela e vários funcionários do sítio usaram o sistema agroflorestal para podar árvores, espalhar sementes e plantar mudas de várias espécies. Em pouco tempo, o verde voltou à região. Mas a luta não terminava ali. Do outro lado do sítio, mais uma área também acabou maltratada pelas ações humanas. A construção da via de ligação entre Samambaia e Taguatinga teve impacto direto no ecossistema local. A maior parte dos cascalhos do terreno precisou ser retirada para a obra. Ficou impossível cultivar plantações. Para reverter o impacto, em 2005, o grupo liderado por Maria Abadia construiu terraços com superadobe e pneus reutilizados na região. “Estamos na busca da sustentabilidade. Para que as pessoas se sensibilizem. Sei que demora um pouco até que isso seja absorvido por nós. O processo educativo é longo, mas não podemos desanimar.”

Coleta seletiva no Sudoeste

Há oito anos, quando a separação de lixo ainda era postura de poucos no DF, o servidor público Wilton Luiz Araújo, 47, desenvolveu o hábito de selecionar os resíduos produzidos em casa. Naquela época, era raro encontrar outros moradores do mesmo prédio que defendiam a atitude pró-ecológica. “Muitos falavam que não ia adiantar todo aquele trabalho e que, no fim, misturava-se todo o lixo. Porque, até hoje, não há coleta seletiva por parte do governo”, lembra. Mesmo assim, a divisão é seguida à risca no apartamento onde ele e a esposa moram, na SQSW 101 do Sudoeste. Em 2010, Wilton teve uma vitória. Depois de muita insistência, conseguiu convencer o condomínio a adotar a coleta seletiva. A iniciativa levou a maioria dos moradores dos 120 apartamentos a se preocupar com a destinação do lixo de casa. “É bom saber que acabei levando outras pessoas a aderirem à reciclagem. Me sinto fazendo minha obrigação de cidadão.” Como o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) não dispõe de coleta seletiva na região, a síndica decidiu fechar parceria com uma empresa de reciclagem para vender os materiais secos descartados. Com a adesão, o prédio consegue juntar no depósito 500kg de lixo seco por mês.

Fonte: Correio Braziliense

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