‘Faltam terrenos para o crescimento urbano’

A infraestrutura das grandes cidades, principalmente, o saneamento básico, não evoluiu na mesma proporção da demanda por imóveis decorrente do boom da nova classe de consumidores. Para conter os preços, apenas promovendo melhorias urbanas, alerta o vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (CBIC), José Carlos Martins. À parte do segmento de residências, o ano 2014 promete, diz ele, comemorando antecipadamente os frutos das concessões a serem leiloadas neste semestre.

Os leilões de infraestrutura estão concentrados no segundo semestre, o que só deve movimentar o setor em 2014, e a economia está em ritmo lento. O que esperar para a construção?
Temos que analisar duas frentes, que caminham de forma diferenciada: os mercados imobiliários e o de infraestrutura. O mercado imobiliário é maduro. Chegamos em 2012 financiando mais de R$ 80 bilhões em imóveis, um crescimento muito forte. Não esperamos que esse cenário se perpetue continuamente. O que enxergamos é um crescimento moderado. A Caixa (Econômica Federal) espera financiar mais de R$ 130 bilhões neste ano. São números recordes, mas com crescimento inferior ao do ano passado. Algo em torno 4% a 5% de crescimento sobre uma base de comparação bastante positiva. A perspectiva é entrar em um período de normalidade neste ano.

Mas, em 2012, o setor imobiliário já apresentou gargalos e sinais de enfraquecimento. Tem como avançar neste ano?

O número de lançamentos caiu 30% no ano passado, mas o financiamento continuou crescendo. A gente não vê sinais de queda. O que vemos é que não cresceremos no mesmo ritmo. A grande preocupação é com os custos que aumentaram muito nos últimos anos, principalmente de terreno e de mão de obra. O custo aumentou mais do que a renda e a perspectiva é de redução do poder de compra. O custo da mão de obra, naturalmente, avançou por saímos de uma base de 1,3 milhão de empregados, em 2005, para 3,3 milhões, em 2012. Claro que isso tem efeito. Com o custo do terreno ocorreu o mesmo. Aumentou a procura, o preço subiu. A contratação de mão de obra deve continuar subindo, mas será agregada a um ganho inevitável de produtividade, o que ajudará a conter os preços.

O que está impulsionando a valorização do terreno?

Enquanto não houver terra urbanizada compatível coma demanda, logicamente, haverá uma pressão de preço. O que é preciso é criar mecanismos para aumentar a oferta de área de qualidade, que garanta espaço de ocupação compatível com as necessidades da população. Isso só é possível com novos loteamentos, com a instalação de infraestrutura adequada.

O desafio é o transporte, para permitir que as pessoas morem distante do trabalho?

O maior problema é saneamento. As companhias estaduais de saneamento não têm capacidade de investir. O Rio de Janeiro é um dos estados mais complicados em questão de saneamento, embora esse seja um problema em praticamente todo o Brasil. Mas, no Rio, no Pará e em Alagoas as condições são mais complicadas. Em São Paulo, o problema é o custo da terra mesmo. É um estado muito grande, que reúne um conjunto de problemas. Houve um boom imobiliário da nova classe média de 2004 para frente, que acabou pressionando os preços do terreno. O que não houve foi uma oferta compatível de terra que compensasse o crescimento urbano. Não adianta construir longe, tem que levar infraestrutura adequada junto.

No caso das obras de infraestrutura, o desafio é a morosidade das contratações pelo governo.
Imaginamos que a infraestrutura daqui a pouco decole. Não tem como esperar mais. Quase todos os aeroportos estão em obra. As cidades brasileiras estão em obras na área de mobilidade. Isso é visível nas estatísticas de emprego na construção. Enquanto o emprego em edificação imobiliária está estabilizado, em infraestrutura está crescendo. A infraestrutura será o segmento propulsor do crescimento da construção daqui para frente. As limitações estão no ambiente de negócios, que é todo travado. É o velho problema da burocratização. São estruturas arcaicas que não acompanharam o setor. Por isso, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) não tem o desempenho esperado. Saindo as concessões, os investimentos irão andar mais rapidamente. O setor privado é muito mais ágil.

O ano de 2013 será um vale, em meio a crescimentos excepcionais em 2012 e 2014?

O ano de 2014 será melhor por um combinado de fatores. Será ano eleitoral. Tradicionalmente, os investimentos saem no fim dos mandatos. Não tem como o Brasil crescer com sustentabilidade sem investimento. E 50% do crescimento é em obras de construção civil.


"Enquanto não houver terra urbanizada compatível com a demanda, logicamente, haverá uma pressão de preço. O que é preciso é criar mecanismos para aumentar a oferta de área de qualidade"

 

Fonte: Brasil Econômico

 

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