Setor da construção sofre os efeitos da desaceleração econômica

 
Contratação e confiança diminuem, e custos superam índice de inflação

Intensiva em mão de obra, a construção civil está sendo fortemente afetada pela desaceleração da economia. A contratação dos trabalhadores nos canteiros de obras está caindo, assim como a confiança dos empresários, e os custos do segmento superam o índice de inflação do governo. Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), com base nos dados do emprego formal de maio (Caged, do Ministério do Trabalho), nos últimos doze meses, encerrados em maio (último dado disponível), o nível do emprego caiu 0,7% na atividade de preparação de terrenos e 1,7% nas obras imobiliárias, enquanto nos empreendimentos de infraestrutura ficou estagnado.

No conjunto, a construção registrou em maio saldo negativo de empregos (-1.877), o pior resultado para o mês desde 2004, quando o setor entrou num ciclo de alta, segundo a FGV. No acumulado do ano, o setor respondeu por 112.568 contratações, o resultado mais baixo para o período desde 2009, quando o país foi atingido em cheio pela crise financeira internacional.

— O setor está passando por uma desaceleração intensa que começa a se refletir no mercado de trabalho — disse Ana Castelo, coordenadora de projetos do Ibre/FGV.

Crédito levou à expansão desordenada

Na visão do especialista José Pereira, da Nova Securitizadora, o setor já atingiu um teto e, agora, a tendência é de um crescimento moderado. O total de financiamento com recursos da poupança, destacou, saiu de R$ 3 bilhões em 2004 para R$ 82,7 bilhões no ano passado e o número de unidades subiu de 53.826 para 453.571 no período. Não há espaço para que o setor repita o desempenho nos próximos anos, porque a base de comparação é alta, destacou.

Dados divulgados na sexta-feira pela Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que os financiamentos com recursos da caderneta foram recorde em maio, com R$ 9,75 bilhões, alta de 54,8% sobre o mesmo período do ano passado. No intervalo, foram financiadas 47,6 mil unidades, crescimento de 37% sobre maio de 2012. Mas, para o economista Celso Pretucci, do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), o desempenho não deve se repetir nos próximos meses. A projeção é que o setor feche o ano com alta entre 5% e 10%.

Perdas na Bolsa

Os especialistas lembram que esse boom levou as incorporadoras a um crescimento desordenado e o resultado disso ainda persiste, com muitas empresas em processo de reestruturação e revisão de estratégias diante dos prejuízos registrados. A recente instabilidade na Bolsa agrava o quadro. Das 20 empresas do setor com ações em Bolsa, 15 perderam valor de mercado nos últimos seis meses (até 4 de julho). Em dezembro, elas valiam R$ 41,6 bilhões no conjunto, valor que caiu para R$ 30,9 bilhões, uma perda de R$ 10,7 bilhões.

Para o analista do BB Investimentos Wesley Pereira, outro fato de pressão é o Índice Nacional de Custo da Construção Civil (INCC), que nos 12 meses fechados em junho atingiu 7,98%; acima do IPCA que fechou em 6,7% no período. O INCC é composto por insumos (materiais) e mão de obra (51%). Segundo ele, diante do quadro de arrefecimento do setor, as empresas terão que se tornar mais eficientes.

— Quem for repassar custo não vai vender — disse Pereira, destacando que as promoções estão ficando mais frequentes.

Para o economista da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Luis Fernando Mendes, o setor tem uma dependência muito grande da conjuntura econômica, ainda que atue a médio e longo prazos.

— As decisões de investir e de construir são tomadas a curto prazo. A percepção de que a inflação vai subir e a incerteza do trabalhador em conseguir reposição salarial pode fazer com que ele adie o risco de assumir um financiamento de 30 anos — disse Mendes.

Fonte: O Globo

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