Consumo de cimento em alta atrai investidores

Para atender a nova demanda iniciou-se uma onda de investimentos em expansão

A indústria cimenteira do Brasil dobrou de tamanho nos últimos sete anos, puxada pelo boom imobiliário, obras de infraestrutura, industriais e comerciais e por oferta de crédito e aumento da renda da população. Com o consumo aquecido, em alguns momentos cresceu a ritmo de dois A indústria cimenteira do Brasil dobrou de tamanho nos últimos sete anos, puxada pelo boom imobiliário, obras de infraestrutura, industriais e comerciais e por oferta de crédito e aumento da renda da população. Com o consumo aquecido, em alguns momentos cresceu a ritmo de dois dígitos, como em 2010, e o mercado teve de recorrer a importação para se suprir. Para atender a nova demanda, a partir de 2007 iniciou-se uma onda de investimentos em expansão, novas fábricas e até fornos parados foram modernizados e religados.

O país saltou de uma posição que variava de décimo a oitavo maior consumidor de cimento mundial para o quarto maior mercado global, atrás apenas de China e Índia e colado nos Estados Unidos. O consumo do país neste ano vai superar a marca de 70 milhões de toneladas, o que significa 350 quilos por habitante/ano, e poderá beirar 80 milhões de toneladas até 2016.

De janeiro a abril, o mercado brasileiro mostrou-se arrefecido, com aumento de apenas 1,4% nas vendas. No ano passado, o crescimento foi de 7,5% e a previsão para 2013, do SNIC, entidade dos fabricantes nacionais, está na faixa de 5% a 6%.

"A grande alavanca do consumo é a oferta de crédito e o aumento da renda das pessoas", diz José Otávio de Carvalho, presidente-executivo do SNIC. A expectativa para os próximos anos é de que cresça pelo menos uma a duas vezes o índice do PIB do país. Espera-se que o peso da infraestrutura aumente de 25% no consumo. Nos países desenvolvidos é de 40% a 50%. No Brasil, metade ainda vai para edificações habitacionais.

Esse novo cenário, além de estimular os tradicionais grupos a reforçarem e ampliarem seus parques fabris, atraiu uma leva de novos investidores. E ainda neste mês, a líder brasileira do setor, a Votorantim Cimentos tem data definida para fazer sua estreia na bolsa, em uma megaoperação que poderá render até R$ 10 bilhões. Será a primeira cimenteira no mercado de capitais.

Há dois anos, a Cimentos Liz, de Vespasiano (MG), tentou uma oferta primária de ações para captar R$ 800 milhões, mas não teve êxito naquele momento, pois o mercado de capitais não estava com apetite. Agora, a expectativa é diferente, de sucesso, e novos grupos poderão também buscar o mesmo caminho.

A Votorantim vai encontrar pela frente um mercado mais competitivo, com mais gente brigando por fatias de vendas. Seus concorrentes não serão só os tradicionais grupos João Santos, Camargo Corrêa (InterCement e controlador da Cimpor), Atalla, (Ciplan), Soeicom (Liz), Tupi e as duas multinacionais europeias: a francesa Lafarge e a suiça Holcim.

Além da siderúrgica CSN, que entrou no setor em 2009, nomes desconhecidos como Apodi, Mizu, Supremo, CPX, Petribu, BRC, Cementos La Unión, Sanave e Cimento Bufalo surgiram do nada. Alguns até existiam, mas sem expressão. De repente ganharam visibilidade. Caso da Mizu, do grupo Polimix, que já tem operação de cinco fábricas.

Estão espalhados do Sul ao Norte do país e apareceram na esteira do aumento da demanda e da interiorização da economia a partir de 2006. Nordeste, Centro-Oeste e Norte foram as regiões que tiveram maior aumento de consumo nos últimos anos, embora o Sudeste ainda domine quase metade (46%) de todo o cimento vendido.

Foi na direção dessas novas fronteiras, com avanço do agronegócios, novas indústrias e obras de infraestrutura, que se dirigiu a maioria dos novos investimentos. Tanto para atender a demanda que surgiu – do puxadinho da casa a uma hidrelétrica -, como para substituir importações de outros países e até de origens internas, principalmente do Sudeste.

Essa expansão atraiu gente de outros setores. A CSN é um bom exemplo disso, mas contou com uma vantagem que poucos detinham: matéria-prima. É dona de jazidas de calcário e um subproduto importante na mistura do produto, a escória oriunda da produção de aço. Outros enxergaram uma oportunidade de investimento nova, como a Cerâmica Elizabeth, a gigante da construção pesada Queiroz Galvão e acionistas do grupo cearense M. Dias Branco, forte na indústria de alimentos.

Com a expansão do consumo, também retornou ao setor, com apetite aguçado, os Brennand, tradicional família pernambucana que se desfez de várias fábricas de cimento nos anos 90, durante a grande crise da indústria no país, a qual forçou a venda de ativos por parte de diversas famílias.

Entre os novos players sobressai a Mizu, sediada em Mogi das Cruzes (SP), do grupo concreteiro Polimix. São cinco fábricas: São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Sergipe e uma no Rio Grande do Norte em sociedade com a Votorantim.

A Cimento Apodi é um investimento de Ivens Dias Branco, com sócios do setor da construção, no Ceará, onde já tem duas instalações de produção, uma delas ao lado do porto de Pecém.

A Supremo Cimento, de Pomerode (SC), saiu de uma pequena moagem na sua cidade partiu há dois anos para uma grande fábrica no Paraná, em Adianópolis. Em 2011, para garantir esse plano, de mais de R$ 300 milhões, vendeu metade do capital para o grupo português Secil / Semapa, tradicional fabricante de cimento.

A CPX Brasil Mineração e Particpações, liderada por um ex-executivo de bancos de investimentos e da Votorantim, firmou protocolos de intenções de dois projetos, cada um de 800 mil toneladas e investimento na casa de R$ 500 milhões, com os governos da Bahia e de Goiás. O início de produção está previsto para 2015.

Rodrigo Lara, fundador e presidente da CPX, criada em 2006, disse ao Valor disse que é bom para o Brasil ter novos players de cimento e que há espaço ainda nesse negócio para novos investidores, pois a indústria opera no limite e com muitas fábricas obsoletas.

Segundo Lara, a CPX, que vai em breve lançar sua marca de cimento, tem como suporte um grupo de investidores do país e nasceu pronta, com modelo de governança, para ir à bolsa. "Temos ativos minerais em todas as regiões do país".

Ricardo Brennand, um dos ramos da família do mesmo nome, voltou em 2011 e já tem duas fábricas: uma já em operação em Sete Lagoas (MG), partindo para uma expansão, e outra em construção na Paraíba. Outro ramo, o de Cornélio Brennand, se associou à Queiroz Galvão para montar projetos na Bahia e no Maranhão.

Há um amplo leque de projetos de novas fábricas e de expansão e número similar de planos de intenções anunciado. Boa parte já está em andamento para sair do papel entre este ano e 2015. Se tudo for concretizado, o país vai ultrapassar a capacidade de 120 milhões de toneladas ao ano em 2016 – aumento de 50% sobre as atuais 82 milhões de toneladas.

Segundo executivos e dirigentes do setor, a indústria tem de operar com excedente de capacidade de pelo menos 20% sobre o consumo, pois há picos de demanda em certas épocas do ano. Hoje, essa marca está no limite, menos de 15%. Por isso, e com base em investimentos em andamento de diversos grupos, eles avaliam que o país terá um parque instalado com mais de cem fábricas em 2015 e uma capacidade instalada anual entre 100 milhões e 110 milhões de toneladas.

De 2006 até o início deste ano, segundo apurou o Valor, foram construídas 20 novas unidades industriais e atualmente cerca de dez fábricas encontram-se em instalação no país, sem contar retomadas de unidades paralisadas nos anos de crise (que durou até 2004) e modernização e expansão de instalações existentes.

O Brasil conta hoje com 16 grupos em atuação, com a gestão de 30 empresas. Nas Américas, só perde em número de fabricantes para os EUA, com 27. Em outras partes do mundo, fica atrás apenas da Itália, Índia e obviamente da China, porque faz 1,8 bilhão de toneladas de cimento por ano.

Fonte: Valor Econômico

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