Minha Casa sofre com falta de terrenos


Para construir, construtoras estão migrando para cidades menores

A dificuldade por parte das construtoras em encontrar terrenos e os altos preços praticados para aqueles disponíveis estão empurrando as obras do programa Minha Casa, Minha Vida para regiões cada vez mais distantes dos grandes centros. Mesmo a recente elevação em cerca de 15,6% na faixa I, destinada a quem tem renda de até R$ 1.600, aumentando seu valor máximo para R$ 76 mil, não conseguiu desatar o nó da construção de moradias nas principais capitais. O fato – dizem os especialistas – é que os valores são inviáveis justamente nas áreas mais carentes de habitação.

Esse leque de dificuldades, no entanto, não vem impedindo o avanço do Minha Casa, Minha Vida. Em sua segunda etapa, o programa já contratou um milhão de unidades, quase um terço delas voltado à primeira faixa de renda. Desde a criação do programa, as entregas das unidades já superaram a casa de um milhão e as propostas para a construção de mais 300 mil novos imóveis estão em fase de análise pela Caixa Econômica Federal. Até 2014, a previsão do governo é a de fechar contratos para a construção de mais 1,4 milhão de novas moradias, envolvendo recursos diretos de R$ 85 bilhões.

Pesquisa elaborada pelo Sindicato da Indústria da Construção de São Paulo (Sinduscon-SP), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), demonstra que a escassez de terrenos é considerada a principal dificuldade das empresas que atuam no programa, de acordo com 66 construtoras ouvidas. "As regiões de Guaianazes, Itaquera e Cidade Tiradentes são bairros onde ainda há produção para venda dentro de São Paulo. Fora esses locais, já se tornou impossível encontrar imóveis desta linha para comercializar", afirma Leandro Carame, superintendente de Atendimento da Habitcasa, da Lopes Consultoria . "O que se percebe é que as construtoras estão migrando para cidades menores, como Mogi das Cruzes, Sorocaba e Votorantim. Só no interior do estado ainda se consegue fabricar produtos dentro do programa", diz Carame.

De acordo com Sergio Watanabe, presidente do Sinduscon-SP, os grandes centros urbanos não têm conseguido viabilizar unidades na faixa I. "Essa faixa vem sendo viabilizada nas pequenas cidades e regiões periféricas. Porém, o maior problema de déficit habitacional está nas grandes cidades", diz.

A Direcional Engenharia, que em 2012 lançou cerca de 26 mil unidades, das quais 75% endereçadas ao programa Minha Casa, Minha Vida, também reclama da escassez de terrenos em São Paulo e dos altos preços praticados, obrigando a construtora a se distanciar cada vez mais do centro. "Nossas obras estão sendo feitas em São Bernardo do Campo, no bairro do Jaçanã (zona norte da capital) e Campinas. Estamos pesquisando outras localidades para construirmos dentro do estado", afirma Ricardo Ribeiro Valadares Gontijo, diretor superintendente.

A Cury, empresa da qual a Cyrela Brazil Realty tem 50% de participação, estima que o valor geral das vendas de seus lançamentos chegará a R$ 1,4 bilhão em 2013. Se a meta for atingida, significa que os lançamentos da incorporadora focados na baixa renda crescerão 11% ante o volume geral de venda de R$ 1,264 bilhão realizado no ano anterior. "A maior expansão ocorrerá nos lançamentos de produtos destinados à faixa I do Minha Casa, Minha Vida", afirma Fábio Cury, presidente da companhia. "No ano passado, foram ofertadas 11.360 unidades e vendidas 9.849. São mais de R$ 560 milhões de contratações na faixa I, equivalentes a 7.416 unidades", diz.

Os números são expressivos. No acumulado de 2009 a 2012, a companhia contratou mais de 25 mil unidades no programa "Minha Casa, Minha Vida", consolidando-se como uma das maiores construtoras do mercado de baixa renda. E deve crescer ainda mais: a Cyrela já sinalizou tendência de aumento, neste ano, dos seus lançamentos da faixa I do programa habitacional, através da Cury. No primeiro trimestre, do total de R$ 955,2 milhões lançado pela Cyrela, R$ 203 milhões foram de projetos nessa faixa, pela Cury.

A João Fortes Engenharia, que constrói no Rio, já está na segunda fase de lançamentos de moradias endereçadas ao programa. Em maio de 2012 o Residencial Brisa do Vale ofertou 496 unidades de dois quartos. "A primeira fase do empreendimento, lançada em 2010, já está 100% vendida e com a entrega das chaves programada para este ano. O residencial completo terá quase duas mil unidades", afirma Luiz Henrique Rimes, diretor nacional de negócios.

O executivo enfatiza que o empreendimento está situado no polo de expansão de macaé, bem próximo à nova zona industrial. "A cidade é considerada a capital nacional do petróleo e apresenta perspectivas promissoras de negócios em diferentes áreas econômicas. O empreendimento será uma nova área para receber a crescente mão de obra da região. Mesmo fazendo parte do projeto Minha Casa, Minha Vida, é muito diferente dos outros empreendimentos, que possuem um perfil mais sofisticado", comenta. Das 1.800 unidades do conjunto habitacional, cerca de 50% já estão para ser entregues e a outra metade dentro de um ano e meio.

Watanabe defende que o governo federal implemente uma política habitacional permanente no Brasil. A intenção, explica, é transformar o Programa Minha Casa, Minha Vida em um programa definitivo, aumentando a visibilidade de empresários sobre o nível de demanda no setor e a perspectiva de investimentos.

De acordo com Watanabe, o governo poderia perenizar o Minha Casa Minha Vida. O presidente acrescenta que uma política habitacional permanente é importante para que "empresários, cidadãos e setores da sociedade tenham previsão de investimentos, mas também expectativas de quando o déficit habitacional será zerado". Pelos seus cálculos, o país tem um déficit de 5,2 milhões de moradias.

Fonte: Valor Econômico

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