Riscos da superdemanda de obras

O Conselho Editorial da revista Téchne, publicada pela Editora PINI, tem acompanhado com interesse e entusiasmo o ciclo virtuoso pelo qual passa a cadeia produtiva da indústria da construção civil. Retomada de investimentos públicos, atração de recursos financeiros internacionais, sofisticação dos negócios e dos instrumentos de gestão, expansão geográfica das incorporadoras e construtoras, valorização dos profissionais e melhoria da remuneração são alguns dos aspectos positivos neste novo cenário, que ganhou força a partir de 2006.

 

Após décadas de desconfiança do mercado financeiro e do governo federal em relação à industria da construção civil formal, o setor voltou a cumprir um papel decisivo no processo de retomada do crescimento da economia. Isso tem ocorrido tanto no que se refere à infraestrutura quanto na área imobiliária, beneficiada por melhorias no ambiente jurídico e institucional, pela abertura de capital de grandes incorporadoras e construtoras, redução de carga tributária, maior disponibilidade de crédito e o lançamento de programas para habitação de interesse social, caso do Minha Casa, Minha Vida, em 2009.

Lacuna de gerações

O período de estagnação da indústria da construção civil formal – entre o início da década de 1980 e meados da década de 2000 – deixou marcas mais profundas do que se poderia imaginar. Uma das mais perceptíveis consiste na migração de algumas gerações de engenheiros civis para outros setores da economia, com destaque para o mercado financeiro. Tal fenômeno criou uma lacuna de profissionais atuantes que, após a retomada dos negócios, começou a ser fortemente notada. Onde estão, afinal, os engenheiros civis, com boa experiência profissional, que possuem entre 30 e 45 anos de idade? Poucos são vistos nos canteiros de obras.

Outras decorrências das décadas de hibernação econômica referem-se ao atraso no processo de mecanização e industrialização dos canteiros de obras, o pouco interesse pela profissionalização da mão de obra, o desaparecimento e/ou enfraquecimento dos grandes escritórios de projeto, o maior distanciamento dos arquitetos do processo de execução das obras, os poucos investimentos da indústria de materiais de construção em produtos e tecnologias.

Graves consequências

Ocorre que, após a forte retomada de negócios, o setor se viu despreparado para atender a uma demanda antes inimaginável, só comparada ao auge do chamado "milagre brasileiro" e suas grandes obras de infraestrutura e do apogeu do Banco Nacional da Habitação (BNH). Faltas pontuais de materiais, dificuldade para contratação de mão de obra e o despreparo para imprimir um novo modelo de gestão, capaz de suportar um número maior de canteiros com dimensões bastante superiores, têm sido algumas das dificuldades encontradas.

Uma realidade que se alterou de forma drástica em um espaço de tempo tão reduzido tende a produzir alguns resultados pouco aprazíveis, que já podem ser notados nos canteiros de todo o País: aparecimento precoce de patologias nas construções, crescimento do número de acidentes de trabalho, atraso no cronograma das obras e queda da qualidade do produto final, com repercussão imediata e intensa nos grandes veículos de comunicação e nas mídias sociais da internet.

Preocupado com essa situação, o Conselho Editorial da revista Téchne decidiu dividir com o meio técnico algumas das principais preocupações em relação à forma como os empreendimentos têm sido planejados, projetados e executados. O objetivo é levantar a discussão sobre alguns pontos que precisam ser equacionados sob pena de ocorrências graves nos próximos anos, o que poderia acarretar grandes prejuízos para toda a sociedade brasileira.

Não se trata aqui de promover a generalização, que não caberia para um universo de empresas como as que compõem a cadeia produtiva da construção civil. Não se trata também de eleger ou perseguir culpados. Propõe-se apenas encarar de frente questões de âmbito setorial, que dependem da atuação de diferentes elos da cadeia produtiva para serem equacionadas. Cada um dos pontos a seguir merece uma discussão técnica específica, de maior profundidade. Coube ao Conselho apenas levantá-los para a discussão.

Insuficiência de estudos geotécnicos

A pressa somada à ingenuidade ou à irresponsabilidade técnica tem pressionado construtores a iniciar a etapa de fundações de empreendimentos sem estudos adequados do solo e, em alguns casos, com laudos de empresas de qualificação duvidosa.

Podemos dizer que quase se trata de um "vício técnico". A amostragem por comparação é regra, não exceção. Os dados sobre terrenos e áreas vizinhas são usados para se executar um número de sondagens muito inferior ao que se deveria, mesmo tratando-se de algo previsto em norma técnica.

Falhas em projetos

Os escritórios de projeto estão atolados. A capacidade de gerar trabalhos de qualidade está ameaçada tanto pelo volume quanto pelos prazos a que estão submetidos. O segmento não foi capaz de atrair corpo técnico nem de fazer a sucessão de gerações. Ou seja, não há projetistas suficientes, no momento, com experiência para lidar com projetos complexos. A isso tudo soma-se a busca desenfreada pela redução de custos, que leva à utilização "cega" de programas de computador, sem uma base conceitual técnica e criteriosa. São comuns relatos como:

  • o cálculo não levou em consideração peculiaridades do planejamento das estruturas que podem submetê-las a carregamentos e esforços de trabalho não previstos em idade mais jovem;
  • edifícios mais delgados não foram devidamente analisados quanto aos esforços;  
  • nas estruturas mistas, as interações de forças entre materiais diferentes não receberam os devidos cuidados, afetando vedações, revestimentos e outros sistemas da edificação.

Coordenação falha de projetos

A velocidade e o volume dos empreendimentos tornaram mais crítico o planejamento das construtoras, demandando urgentemente, nessas empresas, a implantação de um modelo de sistema de gestão e coordenação dos projetos. Na escala atual, a falta de integração e as improvisações decorrentes de um planejamento inicial malconcebido provocam prejuízos durante a execução e potenciais patologias durante a vida útil da edificação.

Concreto não-conforme

É fato notório no meio técnico que muitos concretos fornecidos não atingem a resistência característica à compressão determinada nos projetos estruturais. A polêmica envolve construtores, fornecedores de concreto, projetistas e laboratórios. É preciso, entretanto, sairmos do estágio de apontar culpados e entrarmos em uma nova etapa, de providências técnicas de âmbito setorial.

Falta de checagem das estruturas

A velocidade e o volume das obras não constituem desculpas para o descaso com procedimentos básicos em um canteiro de obras. É uma questão de responsabilidade profissional, técnica e, inclusive, jurídica. Os novos profissionais que chegam agora ao mercado precisam ser devidamente orientados para evitar erros grosseiros de execução.

Despreparo dos engenheiros de obras

A lacuna de várias gerações de profissionais que migraram para outros setores da economia obrigou as empresas a apostar em uma leva de novos engenheiros. Há excelentes técnicos em formação, mas muitos deles têm assumido desafios incompatíveis com a sua experiência e, muitas vezes, até com a sua capacitação. Em meio à superdemanda de produção, o tempo para treinamento torna-se ainda mais escasso, e a formação dos engenheiros de obras segue comprometida, realizada algumas vezes de forma atabalhoada e sujeita a sérios riscos.

Visão da construção como commodity: predominância da incorporação sobre a construção

Após o ciclo de abertura de capital de várias incorporadoras na Bolsa de Valores, a partir de 2006, o segmento de real estate no Brasil passou a ser objeto de desejo de investidores locais e estrangeiros. A lógica do mercado financeiro, com a publicação e a análise trimestral de resultados, passou a ser predominante, principalmente nas grandes incorporadoras e construtoras. O respeito às particularidades técnicas de cada obra e às características inexatas e imprevisíveis da atividade de construir, sempre sujeita às diversas condicionantes, sociais, culturais e naturais (geológicas, climáticas, hidrográficas etc.), passou a ser menosprezado, em nome de uma lógica focada exclusivamente em resultados financeiros de curto prazo.

Falta de treinamento da mão de obra

Outra decorrência direta de décadas de estagnação, este problema exige, tanto do governo quanto da iniciativa privada, ações coordenadas em larga escala que, do ponto de vista prático, ainda não se de­sencadearam. A capacidade de atendimento das instituições tradicionais de capacitação dos operários não aumentou na mesma proporção exigida pela demanda de mercado. As tentativas de treinamento nos canteiros são louváveis, mas, infelizmente, ainda incipientes se comparadas ao volume de obras no País. Maior entre todos os gargalos, a falta de profissionais em número e qualidade afeta tanto o mercado quanto o nível das obras. 

Prazos inexequíveis

Seja por pressão de investidores financeiros interessados na maximização de retorno ou de governantes ávidos por dividendos políticos, as empresas têm se deparado com prazos de execução de obras que, mais do que desafiadores, demonstram-se tecnicamente inviáveis, comprometendo a racionalização dos custos e, em muitos casos, princípios básicos da boa técnica.

Nota-se hoje certo descuido no canteiro. Atividades que deveriam ser rigorosamente acompanhadas frequentemente caem na rotina das necessidades do empreiteiro, que executa o trabalho sem cuidados maiores nem com a qualidade nem com a segurança.

Qualidade dos materiais e componentes

É inegável que o controle sobre os materiais hoje é muito maior do que há duas décadas; são feitos mais ensaios, retiram-se mais amostras e o número de produtos verificados é bem maior. Mas no momento em que a disponibilidade de material passa a ser estratégica para a conclusão das obras e a pressão por redução de custos alcança níveis antes intoleráveis, o grau de exigência em relação à qualidade dos insumos utilizados acaba por ser, em alguns casos, relativizada. Com baixos níveis de exigência de qualidade por parte dos clientes, alguns que só exigem preço, a tendência da indústria de materiais de construção – em muitos segmentos, ainda bastante pulverizada no País – é ceder à tentação de buscar maior competitividade com produtos de qualidade duvidosa.

A revista Téchne espera de todos os profissionais, entidades e daqueles a quem cabe discutir diariamente a qualidade em nosso setor medidas para amplificação deste debate. Nesse sentido, reafirmamos o nosso papel de divulgar e exaltar as melhores práticas, assim como, sempre que possível, alertar quanto às práticas de risco nas obras. A consolidação, enfim, de um setor moderno e eficiente depende do compromisso com a qualidade.

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