Em palestra para engenheiros, presidente da ANA admite: “a crise hídrica não acabou e ninguém sabe quando acabará”

“Penso que na questão da investigação, na elaboração de propostas técnicas para serem transformadas em políticas públicas, um evento como este é insubstituível”.
“A crise hídrica não acabou. Quando acaba? Essa é a grande questão para a qual não temos resposta”, admitiu Vicente Andreu Guillo, diretor-presidente da Agência Nacional de Águas que, na manhã de 26 de fevereiro, palestrou durante a abertura do 4º Encontro de Líderes Representantes do Sistema Confea/Crea, evento que acontece em Brasília até o sábado, 28.  
Ao se dirigir aos 600 participantes do encontro para falar sobre “Crise Hídrica: desafios e soluções”, Guillo, de maneira enfática, revelou preocupação com a legislação que, segundo ele, precisa ser melhorada, e com a necessidade de o país definir e implantar políticas públicas voltadas para mudar hábitos da população em geral.
Em entrevista concedida ao site do Confea, Vicente Guillo revela como vê o cenário atual e apresenta um conjunto de soluções que em médio e longo prazo podem proteger a população de futuros períodos de longa estiagem.
Confea – O país está assustado com a crise hídrica que atinge a região Sudeste do país e em especial o estado e a cidade de São Paulo. Como o senhor avalia a situação?
Guillo – Essa crise tem várias particularidades. Nosso país tem 8.5 milhões de km2 e há localidades como, por exemplo, no Norte, no Acre, onde o grande volume de chuvas tem provocado inundações. Mas a crise hídrica está mais intensa no Sudeste, alcançando São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e está entrando pelo quarto ano na região Nordeste do país. Em parte, esta crise também resulta da maior estiagem desde quando temos dados consistentes. Existem registros de que a última vez em que a Região Sudeste enfrentou estiagem prolongada ou menor volume de chuvas foi há cerca de 120 anos.
Esse fator, combinado a hábitos de uma cultura de abundância, levou a medidas que poderiam ter sido tomadas em caráter preventivo para uma ocorrência dessa natureza. Então, a crise atual  é uma combinação de fatores naturais com medidas que não foram adotadas.
 
Confea – Como a ANA avalia as medidas tomadas pelos governos estaduais para atenuar a situação?
Guillo – No gerenciamento da crise, acredito que as ações adotadas pelas companhias estaduais estejam corretas, principalmente em São Paulo, onde têm sido eficientes, mas refletem, na minha opinião,  ausência de preocupação no passado.
 
Confea – Se a crise hídrica resulta de uma combinação de fatores, a solução também depende de uma combinação, mas de ações, a começar por campanhas educativas, por exemplo?
Guillo – Sim, a solução passa por  uma combinação de ações. Primeiro temos que mudar o padrão  de uso da água. Campanhas são bem-vindas desde que alcancem todos os setores, já que em geral ficamos mais focados na questão urbana. Também temos que ter mecanismos mais eficientes na agricultura e na indústria com a possibilidade crescente de novas  tecnologias como o reuso. Defendo mudanças no patamar de consciência em relação ao uso da água fazendo com que reflita no campo político. Hoje, a Agenda da Água ainda não é relevante. É bem vista, é tratada com simpatia, mas não é uma Agenda que tenha tomado corpo durante campanha eleitoral, por exemplo. Quando entrou, foi pelo lado da denúncia e não pelo lado propositivo em relação à temática.
 
Confea – Há necessidade de mudar a legislação vigente?
Guillo –  Temos que refletir sobre os limites da legislação brasileira. É uma lei recente, com aspectos positivos, mas no caso de conflito federativo ou entre estados, ou ainda entre estados e a União, a chamada dominialidade da maneira como está não deixa espaço para a gestão de soluções. Nossa legislação propõe gestão participativa e descentralizada e responsabilidades  estaduais. Está tudo certo, mas em caso de conflito não há possibilidade de negociação.  Temos que ter uma instituição que tenha a responsabilidade de dar a última palavra. No conflito federativo, seria a ANA, mas entre os estados?
 
Confea – O que mais pode ser feito?
Guillo – Planejamento antecipado,  utilização de novas tecnologias e mudança, inclusive de padrões de engenharia, em relação à temática da água. A questão do controle de água de chuva, preparar as moradias e as cidades para isso, adaptar. O que existem são iniciativas individuais, ou pequena escala. Não existe política pública estabelecida nessa direção, que altere significativamente esses padrões, senão de forma obrigatória, indutiva. As medições individualizadas são outro recurso. Acredito que essas ações estejam na Agenda como soluções.
 
Confea – As empresas de saneamento poderiam colaborar reduzindo os índices de desperdício?
Guillo – As empresas de saneamento também têm papel preponderante nessas soluções. As perdas físicas de água no Brasil são alarmantes, as companhias de saneamento registram perdas que alcançam de 30 a 50%, o que significa que o seu manancial para suprir demanda tem que ter o dobro do seu tamanho. Para atender um, você precisa de duas unidades e isso tem que ser compreendido e considerado pelas empresas de saneamento, as quais de maneira geral ainda não dão prioridade a solução desse problema.
 
Confea – Essas soluções apontadas pelo senhor são de médio e longo prazo. Imediatamente não há nada a fazer?
Guillo – Imediatamente, ações emergenciais na medida do possível, além de fontes alternativas e mudança dos padrões de consumo. E rezar para chover.
 
Confea – Algum significado especial em se dirigir aos profissionais reunidos pelo Sistema Confea/Crea?
Guillo – Penso que, na questão da investigação, na elaboração de propostas técnicas para serem transformadas em políticas públicas, um evento como este é insubstituível. Para tratar de reuso, com tecnologias mais baratas, não  dá sem a participação dos profissionais reunidos pelo Confea. Para mudar padrão de uso, impossível pensar sem a engenharia. Para reunir esse conjunto de alternativas técnicas a ser transformado em políticas públicas, este encontro é insubstituível. A crise a ser tratada num encontro como este é salutar para que a engenharia brasileira se envolva para propor soluções para a crise hídrica e de energia brasileiras.
 
Perfil – Vicente Andreu Guillo é bacharel em Estatística formado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Antes de se tornar Diretor-Presidente da Agência Nacional de Águas – ANA, foi Secretário de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano (SHRU) do MMA e Secretário Municipal de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente da Prefeitura de Campinas. Foi membro do Conselho de Administração da Termobahia e presidente da Usina Termelétrica Nova Piratininga Ltda. Desde o ano de 1982, é funcionário da Companhia Paulista de Força e Luz, tendo sido diretor sindical do Sindicato dos Eletricitários de Campinas, entre os anos de 1987 e 1995.

Fonte: Equipe de Comunicação do Confea

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