Fontes renováveis e integração energética norteiam debates durante a abertura da Copimera. Mobilidade profissional foi outro destaque da pauta

A possibilidade de integração energética entre os países da América do Sul e as pesquisas em torno de combustíveis renováveis marcaram a abertura da XXIV Assembleia da Confederação Pan-americana da Engenharia Mecânica, Elétrica, Industrial e Ramos Afins (Copimera) e da IV Cúpula de Colégios de Engenharia.

“A Copimera é uma entidade internacional constituída em 1991 e que tem como objetivo fortalecer redes de profissionais e especialistas em temas de interesse internacional em diversas áreas, melhorando suas comunicações e atualizando e compartilhando suas experiências. Pertencemos à quinta região da Copimera, com Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Estamos muito honrados em recebê-los no Confea”, comentou o presidente em exercício do Confea, que explicou a sistemática e estrutura do Conselho e do Sistema Confea/Crea e Mútua, destacando a quantidade de profissionais registrados, mais de um milhão e cem mil profissionais.

Para o presidente da Copimera, o argentino Luis Hernández, a Confederação busca melhorar a qualidade de vida de todos do continente. Agradecendo ao Confea pela receptividade e anunciando a próxima reunião, em 2015, para Tegucigalpa, capital hondurenha, ele reconheceu o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia como instituição sólida que orienta os brasileiros em prol de uma melhor qualidade de vida. “Buscamos discutir aonde vai o continente em diferentes setores estratégicos. Esse espírito motiva os engenheiros pan-americanos a promover o desenvolvimento integral de seus países. Graças ao trabalho conjunto do Colégio, a Copimera fortalece a rede de profissionais especialistas em todas as Américas e serve de veículo aos fatos do continente para as instituições”.

Integração energética

A primeira palestra da reunião da Copimera trouxe ao Confea, o diretor de Estudos Econômicos, Energéticos e Ambientais da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), engenheiro de produção Amílcar Guerreiro. Criada por lei há 10 anos, a EPE é uma empresa pública responsável pelos estudos e planejamentos da expansão do setor de energia brasileiro. “Empresas como Eletrobrás e Petrobras têm um perfil de entes do mercado, enquanto o planejamento seria a cargo da EPE. Sabemos fazer projetos, o que ainda não sabemos fazer é a integração de mercados, algo comum a outros países. É um grande desafio. Temos cerca de 300 colaboradores, grande parte engenheiros, engenheiros elétricos, geólogos e outras atividades profissionais cobertas pelo Sistema Confea/Crea e desenvolvemos projetos para expansão do consumo de energia nos próximos 10 anos”.

Ao abordar o tema “Integração de Matrizes Energéticas”, ele mencionou que se trata de um desafio e que traria benefícios como: aumento da segurança energética, desenvolvimento econômico, eficiência energética sistêmica, modicidade de preços e tarifas, sinergia com outros projetos de interesse estratégico. “Temos um caminho longo a percorrer para esta integração nas Américas. O sistema elétrico brasileiro tem essa configuração construída nos últimos 50 anos, uma obra de engenharia de repercussão mundial, como a hidrelétrica de Itaipu. Hoje, exploramos a cinco mil metros de profundidade, temos agora um desafio novo, instigando os profissionais de engenharia, tendo em vista os impactos ambientais”.

Guerreiro sustenta que os recursos energéticos estão disponíveis em todos os continentes, enumerando os atuais cenários de sua distribuição na América do Sul e, especialmente, no país. “Temos hoje em torno de 90 mil megawatts instalados. O surgimento do gás como combustível da transição para a energia renovável do futuro concorre com outros combustíveis fósseis. O gás por si só seria um motivo para integrar o continente. Nossa malha de gasodutos tem que se desenvolver bastante”. Entre outros desafios à integração sul-americana, ele listou a assimetria de recursos energéticos, as diferenças no trato da propriedade e da exploração dos recursos e as diferenças na regulação dos mercados.

O diretor da EPE acrescentou que “ser mais eficiente é resultado da engenharia” e que não é possível deixar recursos como o carvão de lado, considerando a intensificação de seu uso, inclusive na Europa. “Os alemães investem muito em energias solar e eólica, mas nenhum megawatt instalado no sistema eólico e solar provocou a desinstalação de fontes tradicionais de energia. A integração europeia é um caso de sucesso, mas em termos de energia elétrica a integração não é tão grande assim”, comentou.

O coordenador Nacional das Câmaras de Energia Elétrica, Sérgio Cerquinel, questionou Amílcar Guerreiro no sentido de que a tarifa da energia solar não é atrativa por causa da alta dependência tecnológica que temos. “Temos uma visão míope e poderíamos ter incentivos maiores para a eficiência energética”. Ele apontou ainda os gargalos regulatórios. “Precisamos falar a mesma língua”, conclamou Cerquinel. O diretor da EPE considerou que “a questão regulatória é básica se quisermos avançar. As empresas não definem quanto vão gerar. Não é só a questão regulatória aí. Tem a questão dos tributos estaduais, por exemplo”. Sobre eficiência energética, Amílcar considerou que o Brasil tem o terceiro maior programa de etiquetagem do mundo, pelo Inmetro, com resultados importantes. “Hoje, uma geladeira consome bem menos do que há alguns anos”.

Energia Verde

Na sequência, o engenheiro agrônomo Luiz Vicente Gentil (UnB) abordou o tema “Energia Verde Integrando as Três Américas”. Fortalecer o comércio entre os países-membros, equalizar unidades energéticas e gerar eletricidade verde são algumas das vantagens expostas por ele para um tema com “implicações legais, políticas, diplomáticas, regulatórias, econômicas, ambientais e técnicas” e relacionado à produção, biomassas e resíduos diversos como agrícolas e lixo. Gentil afirmou que 59% da matriz energética primária do país são não renováveis e 41% já são renováveis. Destacando o uso, características, cadeias produtivas e pesquisas em torno de combustíveis verdes veiculares consagrados, (biodiesel e etanol) e emergentes (bioquerosene, O.V.R, B-20, Etanol G2), enumerou o potencial brasileiro entre cana-de-açúcar, soja e madeira.

O pesquisador sugeriu ainda que a integração das três Américas em torno do tema se dê por meio de iniciativas como a instituição de um banco de desenvolvimento, “joint venture”, “counter trade”, “intercâmbio de estudos”, “troca de matérias primas”, zona de livre comércio, centros de pesquisa, consultores internacionais, comércio de tecnologias, logística complementar e câmaras de comércio. Ele vislumbra acordos relativos à produção de novas variedades de soja, uma fábrica para a produção de Etanol G2 e troca de matérias-primas por bens de capital. Antes de apresentar sugestões para o encaminhamento de um planejamento estratégico comum, Luiz Vicente Gentil enumerou ainda a viabilidade de possíveis acordos nos segmentos de capital, tecnologia e gestão, em torno de “um jogo de ganha-ganha, eficiente e sustentável”, ao passo em que enfrente desafios como “equalização de licenças, tarifas e certificados; burocracia aduaneira; definição de modais de transporte; controle de fronteiras e padronização de combustíveis”.

Mobilidade profissional

À tarde, a reunião teve continuidade com a palestra magna “Mobilidade e certificação profissional”, ministrada por Jorge Spitalnik, engenheiro mecânico eleito para assumir no próximo ano a presidência da Federação Mundial de Organizações de Engenharia (Fmoi).

Tomando como base o panorama complexo de sistemas de registro profissional em diversos países das Américas, Spitalnik apresentou aos participantes modelos de mobilidade que vêm sendo desenvolvidos pela União Pan-americana de Associações de Engenheiros (Upadi) e Fmoi, por meio de programas baseados na verificação da qualidade do ensino e na análise das qualificações do profissional. “A Fmoi, por meio da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros, assinará em duas semanas um acordo com a Associação de Engenheiros da Austrália a fim de permitir mobilidade automática entre engenheiros brasileiros e australianos. A previsão é de que esse intercâmbio seja iniciado já no próximo ano”, adiantou Spitalnik.

Já a Upadi, segundo o palestrante, tem apoiado o Programa de Mobilidade e Formação de Engenheiros nas Américas, liderado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e que tem, entre outros objetivos, fortalecer a formação integral de universitários e favorecer a transferência de tecnologias e inovação por meio do fomento da investigação, desenvolvimento e inovação. Neste programa, empresas ligadas ao setor de engenharia geram projetos, nos quais elas se propõem a produzir acordos futuros de mobilidade profissional.

Ainda sobre modelos de mobilidade, o palestrante mencionou o trabalho desenvolvido pela Aliança Internacional de Engenharia, que compreende um acordo entre organizações nacionais e que segue padrão global para o ensino na graduação e também para a prática profissional. “Segundo as regras, o engenheiro licenciado no país membro da Aliança é listado em um registro internacional podendo usar o título IntPE, que significa engenheiro profissional internacional”, disse Spitalnik, que finalizou a apresentação ressaltando a necessidade de os países buscarem soluções adequadas para facilitar a mobilidade profissional. “As regras devem simplificar esse sistema que hoje é tão complexo”, pontuou.

Intercâmbio

Com a proposta de fomentar o debate acerca da mobilidade de profissionais de engenharia durante a Assembleia Copimera 2014, representantes dos países também sugeriram propostas que podem favorecer o trânsito de engenheiros pelo mundo.

Julian Cárdona, engenheiro industrial representante da Colômbia, compartilhou com o grupo metas alcançadas em seu país, como o reconhecimento mútuo de títulos e matrículas de engenheiros no Marco da Aliança do Pacífico, que abrange além da Colômbia, o México, Chile e Peru. Também há acordos com universidades de outros países para emitir, em conjunto, diplomas de engenheiros. “Neste caso, o graduado pode ter, ao mesmo tempo, diplomas da Universidade Nacional da Colômbia e da Universidade do México”, exemplificou. Aos integrantes da assembleia, Cárdona sugeriu a adoção de um registro único de profissionais da engenharia em nível pan-americano. Propôs ainda a articulação dos Colégios Profissionais de Engenharia para a inspeção, controle e vigilância; o compartilhamento de bases de dados relativos aos engenheiros registrados em cada país; e a articulação das entidades migratórias.

Representando o Brasil, o engenheiro eletricista Aramis Guerra apresentou a proposta de adoção e implementação do Sistema Nacional de Certificação Profissional, que está em estudo no Sistema Confea/Crea e objetiva compor um repertório de qualificações que serão certificadas pelas instituições ligadas ao Colégio de Entidades Nacionais (Cden). “Depois de certificado, o engenheiro terá uma autorização formal para trabalhar em determinada atividade. Esse reconhecimento irá permitir que ele transite em outros países”, explicou Aramis.

Sobre o evento

A XXIV Assembleia da Copimera e a IV Cúpula de Colégios de Engenharia são reuniões realizadas entre as entidades membros da Confederação para tratar de assuntos inerentes às profissões e, ainda, de assuntos internos da Copimera. A edição 2014 da assembleia da Copimeira no Brasil é organizada pela Federação Nacional de Engenharia Mecânica e Industrial (Fenemi) e pela Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas (Abee), e conta com patrocínio da Mútua e apoio do Confea.

 

Fonte: Confea

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